Como saber se preciso de psicanálise?
Antes de responder à questão levantada no título, é importante nos situarmos em torno da distinção entre a necessidade, o desejo e a demanda. Como saber se eu preciso de análise, se a psicanálise não é da ordem da necessidade?
Contudo, isto não quer dizer que sob diferentes cenários uma análise seria prudente ou essencial para uma quantidade bastante razoável de situações que acompanhamos no dia-a-dia. Tampouco não seria insensato dizer que quando alguém está tomado por um determinado sofrimento não precise de atendimento imediato, são situações em que a demanda invade as fronteiras da necessidade e se mistura a ela. sobretudo quando diante de uma demanda de urgência, situação que se apresenta para nós na forma de urgência subjetiva, situação em que o sujeito precisa de responder.
Nessas situações, alguém sabe que precisa de uma análise quando começa a se interrogar, muitas vezes diante de um mal estar, um determinado tipo de sofrimento que lhe acomete com alguma frequência.
Com frequência trata-se de uma razão que já há algum tempo se movimenta dentro e fora de si, é quando um questionamento se impõe e é quando um determinado tipo de sofrimento que nos oferece pistas nas suas reminiscências e em situações inusitadas mas que precisa de chegar num determinado ponto, eventualmente ao extremo, para que enfim possa ser melhor investigado e tratado. É como se algum momento o nó desatou, a coisa desandou por uma ou por Outra razão, isto é, o momento é justamente quando o sofrimento se tornou pesado demais e se faz necessário reparar o lapso. Geralmente pode ser no retorno de algo que estava íntegro preservado onde a repetição que não faz enigma. Durante muito tempo, ou uma vida inteira, o sujeito encontra no sintoma uma solução. Por sua vez, como temos dito o fracasso do sintoma se dá de forma contingente e particular.
A queda de um lugar ou posição, tal como um pilar que antes sustentava o edifício, é com frequência o fator de desenlace. Isto pode ocorrer para o sujeito diante da perda um emprego, uma posição social, um relacionamento, a instauração de doença ou tudo mais aquilo que promover uma interrogação de sua vida sob um novo ângulo.
Na medida em que isso cai, é que o sujeito se vê às voltas com uma falta. Quando um lugar se esvai, por exemplo, ou o que antes funcionava na lógica de um certo automatismo perde o seu sentido, a partir disso se produz uma questão. Mudanças trazem a tona um cenário novo, que remonta, no entanto, a um antigo sofrimento, isto é, um sofrimento familiar que diante de um deslocamento, se tornou doloroso demais. Pode ser que você observe um aumento expressivo da sua impossibilidade de pensar nas saídas diante de uma situação pessoal, ou que efeitos de encontros ou desencontros importantes tenham ocorrido.
Podemos pensar o analista como alguém que escuta tais efeitos como alguém que lê e traduz cartas. Afinal, um tradutor propõe a inscrição de um novo idioma, no caso da Psicanálise, o seu próprio idioma.
Podemos indicar que, apesar de conhecidas na verdade são infinitas as possibilidades que levam alguém a reconhecer a importância de procurar um tratamento, seja ele de natureza psicanalítica ou não. Contudo, com a Psicanálise podemos dizer que as coisas caminham a partir do momento em que se retifica algo da demanda. Isto é, a retificação subjetiva trata-se de um elemento central em torno das entradas em análise. É a retificação subjetiva que possibilita um giro, na medida em que movimenta a demanda de análise, de um determinado lugar a uma outra direção, a do sujeito e do insconsciente. É ali onde se articula uma questão mais próxima do verdadeiro, é no sobre si e no a partir do que há de si que o trabalho começa a tomar uma forma mais interessante do que no jogo de xadrez das aberturas preliminares. Ao endereçar ao consultório de um Psicanalista, o mal estar revela em ato a dimensão do que há de si em jogo, contudo isso não é suficiente. A sua face essencialmente subjetiva não implica necessariamente o sujeito do inconsciente no seu mal estar ou na sua queixa, a propósito a partir da investigação teórica sabemos que o sintoma (função “Sinto-mal”) precisa de ser investigado em sua função, é uma espécie de prudência que faz parte do trabalho clínico. Contudo, ao tratar as n faces do Outro e sua consistência simbólica e imaginária, sobre o sujeito, aquilo que é da ordem do Real, do insuportável em algum momento inequivocadamente se faz presente ao longo de um tratamento, que demanda uma análise já estava anunciado desde o primeiro momento mas não necessariamente assumido.
Contudo, como dirá Lacan, uma carta sempre tem um destino, que pode ser um analista ou que também pode ser outro. Afinal, quantas cartas você já escreveu e que guardou consigo? É desconcertante pensar em quantas mensagens foram escritas, músicas foram arranjadas, pinturas que foram guardadas e destinadas a acumular poeira. Em síntese, você sabe que precisa de um analista, quando reconhece que precisa de um novo lugar para enviar as suas cartas.
Ainda sobre as cartas, Lacan, fala sobre o fenômeno que é bem interessante. Trata-se justamente da conservação de cartas não enviadas. Ele destaca que o ato de conservar alude a uma de suas características mais impressionantes. A análise vai permitir ao sujeito uma leitura de suas cartas, e assim interrogar o enigma em torno do seu próprio funcionamento inconsciente.
No tocante às cartas, Lacan vai além de sua função objetiva cujo a entrega, a escrita e o envio diriam de algo importante, ele vai além trazendo uma questão em torno da frequência com que se escreve algo, se produz rascunhos que podem tanto ser jogados fora (excluídos), mas atribui uma grande importância ao gesto de se guardar uma carta quando não há nenhuma intenção de enviá-la, trata-se de um fenômeno curioso. Não estamos abandonando a ideia ou rejeitando-a como fazemos quando jogamos fora, ou quando rasgamos, ou excluímos algo que escrevemos.
Lacan também destaca que ao guardar a carta, nós estamos enviando de algum modo, afinal há um destino, que opera no sentido contrário do que se pode supor, ao não enviar uma carta escrita, estamos lhe endereçando a Outro lugar, e dando um voto de confiança extra.
Estamos na verdade, dizendo que há ali algo que é precioso demais para ser confiado ao olhar do destinatário, que pode não compreender o seu valor ou que pode interpretar de uma forma que não queremos. Assim, “enviamos” à seu equivalente na fantasia, em quem podemos confiar completamente para uma leitura compreensiva e apreciativa.
A carta sempre chega ao seu destino e uma análise pode ser o destino das suas cartas. Ao final você se serve como quiser dos efeitos deste trabalho de tradução, que traz maior clareza sobre as sombras e os fantasmas que ali se encontram, uma análise pode te levar a explorar lugares e posições antes não imaginadas para si.
Assim, podemos pensar na mesma pergunta ao avesso, isto seria algo como. “Como saber que não preciso de análise? E é como se a resposta saltasse aos olhos na medida em que pode ser localizada na própria pergunta. De modo sensato, posso afirmar que a resposta só poderia ser possível se a carta for enviada, a única forma de saber que você não precisa de uma análise é através da sua própria análise.
Texto produzido por Daniel Pazzini – Psicólogo Clínico CRP 04/56979
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