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Daniel Pazzini

Daniel Pazzini

PSICÓLOGO CLÍNICO E PSICANALISTA

Por quê a mentira?

Texto produzido por Daniel Pazzini | Psicólogo Clínico – CRP 04/56979

 

Em termos diretos podemos destacar que a mentira existe para preservar a integridade de um ideal. Para o poeta Mário Quintana, “a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”, ou seja, ela pode ser inverídica quanto ao fato, mas verdadeira quanto a uma realidade que se expressa.

Seja na clínica, ou nos diversos encontros ao longo da vida, ao nos depararmos com a mentira, temos a oportunidade de apreender algo da relação do sujeito com aquilo que é da ordem do insuportável.Com a mentira o sujeito oculta os pontos discordantes entre uma situação ideal e outra Real e contingente.

Podemos avançar um pouco nesse entendimento, ao propor que com a mentira, nas suas diversas apresentações, obtemos elementos que revelam uma verdade, a verdade de uma falta e também de um desejo que contempla o tipo de ilusão de completude que o sujeito precisa sustentar.

Enquanto a verdade se apresenta sempre como um semi dizer, a mentira não se mede senão naquilo mesmo em que se manifesta e que salta aos olhos, ou melhor, aos ouvidos. Ela funciona diante da necessidade de se operar uma proteção ao sujeito diante do impossível de suportar, o Real e seu caráter incontornável. É justamente diante da iminência do Real que uma defesa se impõe para preservar a integridade de um ideal.

A mentira aponta justamente para aquilo que se pretende ocultar, a própria falha. O sofrimento em torno da mentira consiste no trabalho exaustivo de remontar cenas muitas vezes a partir de outras criações também fantasiadas, isso trará muitas dificuldades ao sujeito quando indagado. Na medida em que o sujeito cria ficções cada vez mais sofisticadas, também cria mais fragilidade na medida em que se distancia da sua capacidade de suportar uma realidade.

Na Psiquiatria este fenômeno é descrito como Mitomania, nesses casos a mentira vai adquirindo um caráter compulsivo e muito repetitivo. Ali onde o sujeito recria uma versão de si, ou de uma situação sobre a qual deveria ter ocorrido. A mentira se apresenta como uma solução, uma tentativa de remediar aquilo que não é possível de ser apreendido num determinado momento.

Para a Psicanálise, para cada estrutura clínica, a mentira se manifestará segundo uma função específica, esse assunto é amplo e podemos trabalhar com mais profundidade em outro momento. Contudo, podemos sinalizar e apontar que o trabalho operado por uma análise, no sujeito neurótico, visa facilitar com que este sujeito se interrogue sobre a necessidade de sustentar o personagem criado. A partir dos três tempos lógicos, com Lacan podemos demarcar uma direção para o tratamento passando pelo instante de ver, tempo de compreender para que o sujeito possa então concluir algo em torno desta necessidade, e possa então abrir mão do personagem em detrimento do consentimento com a sua própria castração.

 

A mentira e a relação do sujeito com a imagem

 

A contemporaneidade com seus gadgets e redes sociais impôs ao sujeito outra condição de existência, a de criar o seu próprio avatar, isto é, uma extensão do eu na sua apresentação  virtual, podemos dizer que o “perfil” é justamente aquilo no qual algumas pessoas acabam confundido com o próprio ser. Marcelo Veras, em seu livro “Selfie, logo existo”, ilustra bem como a nossa relação com a imagem adquiriu certa importância nos últimos tempos.

Não é raro irmos a um show, e vermos centenas de celulares acesos, com os novos recursos as pessoas passaram a filmar quase que de forma integral o evento. É como se ocorresse um deslocamento do sujeito para o virtual, nisso algo se perde, afinal é como se o sujeito verdadeiramente não estivesse presente ali, mas em outra cena, porque de alguma forma se encontra apoiado em alguma espécie de necessidade ou de garantia que aquele momento se eternize no registro de uma imagem em detrimento a uma lembrança (que traria mais algo da fantasia e dos traços mnêmicos do que o imaginário de um registro visual)..

Podemos ir além ao pensar esse cenário a partir da prevalência da imagem no sujeito contemporâneo que de alguma forma se aliena não mais no valor de verdade dos acontecimentos , que é essencialmente simbólico, mas pelo caráter de mostração de algo.

Com o advento da inteligência artificial, por exemplo, é difícil dizer se nós humanos conseguiríamos distinguir um conteúdo autêntico de um falso, isto é, um conteúdo que não foi produzido supostamente por uma pessoa mas que na verdade foi forjado por uma ferramenta de inteligência artificial, por exemplo. Interrogo sobre até que ponto a diferença já não importa mais.

E isso se aplica tanto às produções nas redes sociais, quanto para quaisquer objetos, mesmo aqueles objetos considerados preciosos como são, ou pelo menos deveriam ser,  os diamantes.

O documentário “Nada é Eterno”, por exemplo, nos ajuda a entender o impacto da produção de diamantes sintéticos perfeitos criados em laboratório, sob o mito de que as  pedras naturais são insubstituíveis. Ele mostra como até mesmo os especialistas na pedra, são incapazes de reconhecer pedras sintéticas de pedras falsas sem equipamentos extremamente sofisticados e de altíssima precisão. Assim, os diamantes verdadeiros e os falsos, uma vez inseridos no mercado, via de regra se tornaram verdadeiramente indetectáveis. Mais uma vez retornamos ao ponto, de que talvez já não é possível distinguir o que é verdadeiro e o que é falso.

A perda do estatuto de valor simbólico nunca foi evidente, o valor de um diamante que antes fora pensado através da natureza da pedra e do seu difícil trabalho de extração passa a ser avaliado somente a partir da sua imagem e no seu efeito visual. Se a pedra de laboratório brilha exatamente igual à natural, no imaginário há uma equivalência, ela é idêntica. O sujeito prescinde da verdade e da sua extração (simbólica), ele está capturado pelo efeito visual, se tornando assim, refém do imaginário.

 

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