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Daniel Pazzini

Daniel Pazzini

PSICÓLOGO CLÍNICO E PSICANALISTA

No jargão popular britânico, o termo burnout refere-se originalmente àquilo que deixou de funcionar por completa ausência de energia. Do ponto de vista do fenômeno, podemos facilmente compreender a analogia deste termo que foi transposto para o campo da saúde mental quase que de forma autoexplicativa, sua característica fundamental reside no estabelecimento de uma relação estrutural do sujeito, sua dor psíquica e o seu ambiente de trabalho.

No entanto, isto se apresenta sob múltiplas facetas na clínica, o que inviabiliza uma fôrma universal para o diagnóstico,  quando se fala em Burnout, não estamos diante de um cansaço trivial, consequência natural de uma jornada de trabalho cansativa. Mas de uma verdadeira exaustão que indica o colapso na economia libidinal do sujeito, cuja paralisia pode se manifestar antes mesmo do início de uma atividade laboral.

Em muitas situações, a relação do sujeito com o trabalho confunde-se com a sua própria identidade de modo que o Burnout da indícios para se pensar em uma espécie de patologia do laço social e profissional.

Para ilustrar a dinâmica do excesso que rege esse fenômeno, vale recorrer a uma metáfora simples. “A única maneira de saber o quanto você aguenta comer é comendo até passar mal.”

Se transpormos essa premissa para a esfera profissional e indagarmos “O quanto você consegue trabalhar?” A recíproca é verdadeira. Eis aqui uma dimensão crucial da Síndrome de Burnout: ela se ancora em uma lógica de ultrapassagem sistemática dos próprios limites corporais e psíquicos, assim o limite só será reconhecido após colapso do sujeito.

Contudo, para atingir um determinado objetivo ou meta financeira, uma organização pode impor a um funcionário uma quantidade de tarefas no qual um limite real já está previamente calculado. É o que aponta o trabalho de Dejours, psicanalista francês reconhecido como o pai da psicodinâmica do trabalho, em seu livro “A Loucura do Trabalho”. A partir de uma série de exemplos reais este autor expõe como uma organização pode propor metas impossíveis.

Na medida em que um sujeito é compelido a atender as demandas de maneira inequívoca, este passa a produzir mais do que produziria se não houvesse uma meta predeterminada. E assim, o seu sofrimento passa a ser cifrado na medida em que tanto a sua necessidade financeira quanto a sua autocrítica se entrelaçam e esta segunda passa a funcionar como uma espécie de proteção contra a frustração. Ijunverte a direção da agressividade que retorna para o próprio EU.

O estresse se torna um elemento normalizado que compõe o cotidiano do dia-a-dia no trabalho e não mais uma situação qeventualmente ou
Inexoravelmente, a condição do trabalho implica uma cota de sofrimento, visto que o ato de trabalhar nos confronta de maneira permanente com a falha, com o imprevisto e com a distância entre o ideal e o real. Contudo, o ponto nodal não reside na existência do sofrimento em si, mas no destino que a ele é dado.

O trabalho ocupa um lugar central na modernidade; é o espaço onde desenvolvemos habilidades, e podemos refinar nossa inteligência e senso de desafio de modo que no trabalho podemos extrair gratificação e júbilo, amparados por uma promessa civilizatória de autorrealização. O próprio Sigmund Freud considerava a capacidade de amar e trabalhar como uma síntese fundamental daquilo que se pode compreender como saúde mental.

No entanto, para que essa auto realização ocorra —isto é, a transformação do sofrimento inerente ao ofício, em prazer —, são exigidas certas condições
Seja do ponto de vista do sujeito, ou do ponto de vista da organização. Essa transição não depende exclusivamente do talento individual, da “boa vontade” ou das tão aclamadas competências gerenciais do sujeito, mas sim da organização do trabalho.

 

A Organização do Trabalho e a Ilusão do “Empreendedor de Si”

Christophe Dejours, é categórico ao enfatizar o peso que a organização e o ambiente institucional exercem sobre a saúde do trabalhador. Essa perspectiva subverte a narrativa contemporânea do “eu empreendedor de si mesmo”. O burnout aponta para uma fratura que ultrapassa o sujeito singular; não se trata de uma fraqueza de caráter ou de uma mera vulnerabilidade pessoal, embora circunscrever com precisão exata seja uma tarefa de alta complexidade clínica, mas com Lacan podemos pensar na perspectiva de um excesso.

Existe uma fronteira tênue entre as vicissitudes do sofrimento de um sujeito e as exigências imperativas de uma época marcada por mutações socioeconômicas profundas. Sob a égide do neoliberalismo, testemunha-se a exaltação e a generalização do desempenho individual em detrimento do trabalho colaborativo — aquele que inclui, acolhe a alteridade e faz laço social com o Outro.

A célebre máxima de Margaret Thatcher, “Não há sociedade, apenas indivíduos”, funciona como o paradigma perfeito dessa lógica. Ao isolar o sujeito de sua rede de sustentação coletiva, o sistema transfere o peso do fracasso institucional inteiramente para os ombros do trabalhador.

A Supressão do Pensamento como Imperativo Econômico

Outro enunciado que opera como um imperativo clínico-político marcante na história recente do Brasil foi o lema adotado pela presidência da República em 2016: “Não pense em crise, trabalhe.” Trata-se de uma formulação sintomática. Se reorganizarmos a frase sob a ótica analítica, percebe-se que um sujeito em crise encontra-se temporariamente impossibilitado de pensar e, por conseguinte, de trabalhar com potência criativa. A crise localiza-se exatamente na ruptura com a capacidade de exercer o pensamento.
Se o ato de pensar deve ser evitado pelo discurso hegemônico, deduz-se que há uma finalidade oculta: o exercício do pensamento introduz questionamentos e pode colocar em xeque a ordem estabelecida. Assim, a tentativa de suprimir a reflexão visa manter as coisas em ordem, pois o pensamento carrega o risco latente de provocar o desequilíbrio da engrenagem produtiva.

Como apontou Hannah Arendt ao desenvolver o conceito da Banalidade do Mal:
“Pensar é perigoso… no entanto, não pensar pode ser ainda mais perigoso.”
Até que ponto o burnout não se articula diretamente com essa supressão defensiva do pensamento exigida pelo mercado?

 

A Estrutura Subjetiva: O Regime de Gozo e as Instâncias do Eu

Para além dos atravessamentos institucionais, econômicos e sociais, a psicanálise nos convoca a interrogar a posição do sujeito diante dessa engrenagem: qual a sua implicação no próprio sofrimento? É preciso investigar o caminho que aponta para o regime de gozo na sua relação com o trabalho.

Clinicamente, não se pode afirmar que exista uma estrutura psicopatológica unicamente suscetível ao burnout. O que se observa é um modo específico de satisfação pulsional — um regime de gozo — que coloca o trabalho no centro da economia psíquica, conferindo sustentação e consistência ao adoecimento. É a forma como o inconsciente incide sobre a apresentação clínica do esgotamento, exigindo uma análise rigorosa caso a caso.

Investigar as instâncias do Eu nos ajuda a decifrar esse fenômeno sob três principais vertentes clínicas:
O Supereu Tirânico: Em muitos casos, verifica-se a tirania de uma instância feroz e cruel. O sujeito acometido pelo burnout tende a ser implacável e severo consigo mesmo em múltiplas áreas da vida, utilizando o ativismo profissional como uma defesa rígida contra o confronto com seu próprio desejo inconsciente.

É o indivíduo eternamente apressado, que por exemplo,  pode estar capturado por um determinado perfeccionismo patológico, a partir de um ideal que colide violentamente contra o princípio da realidade ao tentar sustentar a fantasia de ser o funcionário ou o gestor perfeito.

A Alienação no Ideal do Eu: Encontramos também o sujeito identificado excessivamente com o Ideal do Eu. O trabalho assume um monopólio existencial, anulando qualquer outra possibilidade de investimento afetivo fora da esfera laboral. São indivíduos que frequentemente demonstram graves dificuldades de estabelecer laços genuínos.

A Angústia do Vazio: Para esses sujeitos, os finais de semana e as férias não representam alívio, mas sim momentos de profunda angústia, uma vez que a suspensão temporária das obrigações desestabiliza o único referencial imaginário que os sustenta no mundo.

“O discurso capitalista é algo loucamente astucioso… anda às mil maravilhas, não pode andar melhor. Mas, justamente, anda rápido demais, se consome. Consome-se, de modo que se consuma.” — Jacques Lacan (O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise)

A advertência de Lacan elucida a encruzilhada contemporânea. Devemos ter cuidado com a incidência de um discurso que promove a ilusão narcísica que diz que tudo pode ser consumido, demandado ou resolvido pelo viés da performance individual, uma demanda advinda do campo do outro que absorve por completo o sujeito. O burnout é o ponto de ruptura em que o sujeito, esgotado de si, se consuma no próprio esvaziamento.

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