Texto produzido por Daniel Pazzini – CRP 04/56979
Hamlet e os impasses do desejo
Hamlet em seu conhecido dilema “Ser ou não ser” ilustra a dificuldade de sustentar o nosso desejo frente às angústias e intempéries que a realidade impõe. Marcado por uma impossibilidade de fazer o trabalho de luto diante da morte do pai, e confrontado com o próprio enigma do desejo da mãe. O príncipe dinamarquês é assombrado por um fantasma, o espectro do Pai-Morto, que reivindica de Hamlet a assunção de uma posição, um ato.
Apesar de não ser um caso clínico, peço licença para dizer que o romance de Shakespeare pode ser entendido como um verdadeiro tratado de Psicopatologia, uma vez que é possível traçar um paralelo do sofrimento vivenciado por Hamlet com um dos sintomas mais falados na contemporaneidade, a saber, a procrastinação.
Fruto de um dilema que se constitui como um verdadeiro impasse para o desejo, a paralisação de Hamlet em sua apresentação singular aponta para a relação do sujeito com o impossível, isto é, com o que cessa de não se escrever. Para Lacan, a tragédia de Hamlet é a tragédia do desejo, paradigma da Neurose Obsessiva. O dilema “Ser ou não ser” remete a sua dificuldade de ter de se haver com o enigma.
Hamlet, marcado pela impossibilidade se indaga, seus pensamentos em cadeia cumprem um papel na tragédia, demarcar o seu inevitável assujeitamento ao fantasma. sofrimento é prolongado. adiaque o impede de agir diante daquilo que o seu próprio desejo causa.
“Ser ou não ser, eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias
E, combatendo-o, dar-lhe fim? ”
Para Lacan, a tragédia de Hamlet é a tragédia do desejo. O dilema “Ser ou não ser” nos remete tanto a uma dificuldade como a sua impossibilidade de lidar com o próprio desejo. Assim, o sujeito neurótico, hesita através de indagações e pensamentos que cumprem o papel de impedir de agir justamente para manter sob controle aquilo que sustenta a sua causa. Tomado pelo sofrimento, a morte pode se apresentar como um último recurso – como expõe Hamlet – não na tentativa de dar fim à vida, mas sim ao sofrimento inerente a ela, que se tornou pesado demais.
Ideias suicidas podem ocorrer quando algo que estabelecia um lugar ou um sentido para alguém se esvai, assim, a realidade passa a ser insuportável. Isto pode ser alguém, uma posição social, um emprego e até mesmo um relacionamento, no entanto, é importante frisar que se trata de algo complexo que se relaciona com questões inconscientes. Se não forem desenvolvidos recursos para lidar com a dor, uma catástrofe se impõe; é preciso estar atento.
“A vida é real e a morte é simbólica, e se o real é o impossível, viver é o exercício da impossibilidade” (Soraia Carvalho)
Portanto, é preciso falar, sobre o traumático, sobre perdas, sobre a dor, sobre a morte e o morrer e que assim possamos também falar da vida e do viver, e são muitos os impasses. Afinal, “ser ou não ser? ”. E por falar na morte, sabemos que certamente ela chegará. Mas que neste caminho ela não se precipite e não interrompa o encontro com a vida nem com aquilo que nos coloca em movimento e nos faz desejar. O que será?
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